O SOL

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Naquele dia sentia-me particularmente quente. Erupções desenvolviam-se em mim a uma velocidade estonteante. Todo eu explodia em átomos de fissão nuclear. Francamente não estava nada bem disposto!
Ultimamente era sempre assim. Longe iam os tempos em que as minhas explosões criavam planetas.
Mercúrio tinha sido um enorme erro. Demasiado perto. Magma permanente. Vida impossível!
Depois tentei Vénus. Todo ele prata. Mas nada crescia. Não passa de um elemento decorativo na minha órbita.
A terra sim! Nem muito quente, nem muito frio. Uma atmosfera magnífica. Uma gravidade perfeita. Uma órbita ideal.
O planeta azul deu-me grandes alegrias. Vi brotar água. Nascer plantas. Vi seres que saíram do mar. Seres que em breve caminhavam pelas densas florestas tropicais. Vi finalmente humanos. Seres que falavam, sorriam, escreviam. Seres que me divinizavam, que me idolatravam. Eu era o seu Deus. O seu único Deus!
Os seres humanos multiplicaram-se como cogumelos. Desenvolveram civilizações, cidades, impérios. Inventaram armas, fizeram guerras. Descobriram metais preciosos. Aprenderam a usar o petróleo. Criaram indústrias.
São seres estranhos. Com o passar dos milénios tornaram-se arrogantes. Cada vez me desprezam mais. Deixaram de me idolatrar. Criaram religiões humanistas feitas à imagem e semelhança deles próprios.
Agora eles são muitos milhões de milhões. Biliões de seres que tentam sobreviver. Destroem florestas. Devastam campos. Envenenam mares. Secam rios. Até conseguiram abrir um buraco no ozono!
E é precisamente por aí que eu espreito, lançando os meus raios ultra violeta em investigação curiosa.

Vejo as grandes nuvens brancas e continentes boiando num oceano muito azul. Vou descendo. Vejo desertos e florestas. Vejo montanhas imensas de cumes gelados. Mais perto vejo megapolis intensamente iluminadas. Mais perto, ainda, vejo praias de areia branca onde seres humanos se acumulam aos milhares. Aproximo-me mais. Vejo uma ria brilhante atravessada por pequenos barcos. Guarda-sóis abertos. Toalhas coloridas. Um comboiozinho que percorre incessantemente o sapal dourado. Vendedores de bolas de Berlim. Um pontão impaciente por se libertar. Homens, muitos homens, mergulhando no mar, jogando à bola, correndo no areal.
Expõe os seus corpos nus aos meus raios venenosos. Enfrentam-me sem receio. Admiro-lhes a coragem. Por momentos penso que me estão a adorar. Sinto saudades dos egípcios, dos astecas, de Zoroastro!
Desço mais e vejo então que não rezam. Dormem ao Sol, untados de cremes para bronzear. Desprezam o meu poder. Ignoram o meu passado. Não querem saber do meu futuro.
Deixei de me interessar por aquela gente irreverente que me olha displicente de óculos escuros. É tempo de me vingar. Eu sou um astro perigoso. Crio vida, mas também mato!
Em breve a pele castanha que os enche de orgulho desenvolverá pequenos melanomas. Alguns sobreviverão. Outros nunca mais terão férias!

por JORGE FERREIRA PINHEIRO

5 comentários:

Silvares disse...

Já leste "o Pão dos Deuses" de um tal Terence MacKeena (acho que se escreve assim)? A pergunta surgiu-me quendo dizes que os humanos se multiplicaram como cogumelos... ou como no Marix, os humanos são um vírus que faz adoecer gravemente o planeta... enfim... somos assim!

Silvares disse...

No Matrix, queria dizer...

expressodalinha disse...

Claro que já li "O Pão dos Deuses". Livro de referência para mim. Nele se "prova" que somos o somos pela busca insaciável da superação através das drogas. É ali que percebi que perdida a receita do Soma, nada mais vale a pena!

disse...

Jorge,
cada vez mais me entristece o quanto tudo ficou banalizado.Parece que nada mais nos atinge.São tantas as barbaridades diárias que viajam com a velocidade de um raio de um lugar ao outro,que tudo ficou corriqueiro.Nem mesmo a morte parece impressionar.Precisa ser algo muito próximo para realmente comover ou mexer com o nosso dia a dia tão centrado no próprio umbigo.
Temos que ser rápidos senão ficamos para trás, víve-se o hoje,aproveita-se cada minuto, pois parece que o amanhã é cada vez mais competitivo mais incerto.Mas ...querendo acreditar que o ser humano não é um "virus" corroedor e é melhor do que isto em sua essência;naõ será tudo isto uma fuga, um escape para conseguirmos enfrentar este mundo com gente demais, imformação demais,tudo demais? Um escape para nossas próprias limitações e fraquezas...Poder aproveitar o tempo que é tão curto,TÃO... curto?
Gostaria de acreditar que sim.
Adorei o seu conto !!!!Nos faz pensar...ainda...um pouco mais...!
Parabéns

expressodalinha disse...

Obrigado Ví. A vida é muito curta de facto. Ultimamente tenho tido experiências de mortes de amigos meus que me têm afectado profundamente. Sou um optimista por natureza e tento ultrapassar isso. Mas, a verdade é essa: a vida é muito curto e nós aproveitamos mal. O mundo está de pernas para o ar. Resta um consolo, nem que seja à distância. É bom sentir amigos.
Eduardo: obrigado por ter cortado o último parágrafo conforme pedi. Era de uma versão anterior. Estava a mais.

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