ACONTECEU NO OESTE



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Um tiro. Depois outro. Foi por pouco! Escondido atrás da rocha esburacada o cowboy respirava depressa. Silêncio. Experimentou esgueirar-se de cabeça baixa, procurando a camuflagem de um silvado, à direita. Num salto estranho, agachado como um sátiro coxo, deu por si a rebolar na terra sequiosa, levantando uma poeira fina que se prolongou no espaço intermitentemente iluminado pelo sol enquanto retomava posição de defesa. Silêncio outra vez. O sol brilhava com a força que Deus lhe deu e o suor escorria pela fronte do cowboy gorducho, acossado por inimigos invisíveis. Pareceu-lhe vislumbrar um corpo em movimento, lá para cima, entre pinheiros e fetos de altura pré-histórica. Depois outro. Como um fantasma, muito rápido. Os inimigos apertavam o cerco e ele já não tinha balas na espingarda nem na pistola nem no cinturão, oferecido pelo Pai Natal. A situação era complicada. Receou pela própria vida.
Um ruído vindo detrás do penedo que lhe protegia as costas sobressaltou-o. Olhou para cima mas o sol cegou-o como se lhe furasse os olhos com malícia. Até a Natureza parecia estar contra ele, aliada dos índios, impiedosos caçadores de escalpes, que lhe haviam prometido algo pior que a mais escura das mortes.
Tentou recordar a razão daquela disputa mortal mas não foi capaz. O terror ocupava-lhe a mente de tal modo que apenas conseguia imaginar-se enterrado até ao pescoço, com as pálpebras abertas à força de dois pauzinhos, os olhos voltados para o temível astro-rei e uma colónia de formigas africanas avançando gulosamente na sua direcção.
Novo ruído, agora mais próximo, abriu as comportas do pânico que entrou de rompante pelo cérebro do cowboy adentro. Virou-se para trás e tentou escalar freneticamente o penedo. A superfície demasiado lisa impedia-o de se escapulir por aquele lado. O medo crescia e todos os gestos, vigorosos que fossem, eram inúteis e ridículos.
Foi então que, vindo da noite dos tempos, Cavalo Bêbado se abateu sobre ele como um saco de batatas de 50 quilos. O temível chefe Seminola imobilizou-o em dois tempos e soltou um grito de triunfo: “Apanhei-te gordo do caraças!”. O outro inimigo, magro e alto como um pau de varejar azeitonas, saiu detrás de uma moita rindo alarvemente enquanto agitava um tomahawk de plástico sobre a cabeça enfeitada com penas de garnizé.
Envergonhado, o cowboy tentou levantar-se mas Cavalo Bêbado impediu-o de mover mais que dois dedos e uma sobrancelha. “Assim não vale!”- disse- “Quero desforra!”. Indiferente às súplicas do desprezível cara-pálida o índio tirou do bolso um pacote de margarina Vaqueiro meio derretida enquanto o seu companheiro emplumado saltitava alegremente em volta deles segurando um saco de açúcar mascavado, pronto a entrar em acção.
O cowboy imaginou-se a regressar a casa mais uma vez com a cabeleira empastada de margarina e a mãe, enojada, a desatinar com ele, prometendo-lhe racionamento na sobremesa como castigo ou, pior ainda, naquela noite seria impedido de ver “A Desaparecida” na televisão. Foi então que soltou um grito gutural vindo das suas entranhas angustiadas que fez tremer as árvores do pinhal assustando a pardalada e os espíritos do lugar.
Cavalo Bêbado sorriu com desdém e enfiou os dedos na margarina. John Wayne teria menos um admirador na sessão da noite. Os deuses de Hollywood não haviam de ficar agradados…

12 comentários:

Eduardo P L disse...

Só ESCRITORES FERAS, como se diz aqui no Brasil para designar GRANDES ESCRITORES, neste blog de LITERATURA. Esta cada dia mais complicado postar textos nestas páginas!
Parabéns Silvares! À altura do Quem conta um conto!

sonia a. mascaro disse...

Parabéns, Rui Silvares, você escreve muito bem!

roserouge disse...

Uma delícia, esta história. Fizeste-me andar para trás até à infância em que brincadeiras de índios e cowboys eram um "must" pricipalmente no Verão. Eu era sempre a índia por causa do cabelo liso e comprido, punha uma fita na testa, pedia à D. Vitória uma pena das galinhas dela e lá ia eu. E morria sempre, que chatice. Os índios tinham que morrer sempre, era assim nos livros de HQ. Adorei.

expressodalinha disse...

Aqui em Nova Oeiras era mais à pedrada. O bairro tinha sido acabado de construir quando me musei. Fazíamos trincheiras com tábuas dos andaimes em desmontagem e, num labinto de túneis, guardávamos cestos de calhaus. Havia putos mais novos que transportavam, afanosamente, as munições para os atiradores especiais. Um bela juventude feita de cabeças partidas e idas ao hospital para cozer pontos.
Parábens pelo conto. Uma intensidade excelente. Fez-me lembrar isto tudo que, se calhar, merece um conto.

Só- Poesias e outros itens disse...

Que nível por aqui!!!! uma beleza de conto.

Silvares disse...

Agradeço todos os comentários. Escrever é um prazer quase tão grande como desenhar e pintar. Quando era pequeno gostava de escrever contos mas tinha vergonha de os mostrar às outras pessoas. Em adulto ganhei coragem. Agora já não tenho medo. Quando escrevi este contozinho lembrei-me de ser pequeno e ir para a cama muito cedo. E de o meu pai me ir buscar e levar ao colo para a sala para ver o John Wayne na TV a preto-e-branco.
:-)

expressodalinha disse...

Escrever é, digo eu, onde mais nos expomos. Isto daria, aliás, uma interessante discussâo...

Silvares disse...

Não sei não. Por vezes, quando olho desenhos e pinturas mais antigos, compreendo coisas que na altura em produzi essas obras nem me tinham passado pela cabeça. Mas, como dizes, seria um tema de debate interessante.

elsha3er disse...

السلام عليكم ورحمة الله وبركاته اسعدنى زيارة المدونة

hello iam hapyy to visit you i ahmed from egypt and i hope to visit me

ahmed

احمد الشاعر

Jestr disse...

Interesting blog! Hug from Czech republic!

Mustafa Şenalp disse...

çok güzel site. :)

Lica Veríssimo disse...

Sônia,obrigada pelo comentário no ziguezague.
Maravilha teu blog.
Acesso inteligente!
Beijos

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