47 do segundo tempo



CONTE O SEU




para um procrastinador nato que mora só, tem uma existência caseira deveras sedentária e o nada salutar hábito de automedicar-se ou recorrer a farmacêuticos para tanto; há algo que demonstra quão rápido o tempo nos escapa, ou como diz a citação de Ovídio: “tempus edax rerum” (o tempo é o devorador de tudo):
basta abrir o armário do banheiro, no lugar destinado aos medicamentos e ver a validade dos componentes da farmacopéia
uma estatística rápida demonstra que 80% do que foi encontrado na vistoria está com o prazo vencido
é um exercício nostálgico, porque ao ver o frasco de Anador (cuja validade ia até agosto de 2002), relembro da febre que me levou a comprá-lo
aquele Uropac que, em 1999, me permitiu sanar uma inflamação urinária e poder participar dum fim-de-semana regado a rock, sinuca, álcool e sacanagem numa chácara; já não pode mais nos favorecer com seus préstimos desde 2003
o Plasil (este com acompanhamento médico) salvou o final da copa de 2002, já que a crise gástrica que durou exatos 15 dias, terminou naquela manhã de domingo em que acordei completamente chocho, à base de bolacha água e sal e gelatina mas, após o levantamento do caneco pelo Cafu, consegui almoçar tudo que tinha direito – frango frito e maionese inclusos – teve seus estertores de vida útil em maio de 2004
e mais, após um genuíno e sincero “puta que pariu! como o tempo passa!”, volta à memória que, da última vez em que vistoriei a caixa para fazer a faxina, o tal antitérmico ainda estava em plena vigência de suas faculdades terapêuticas, e me parece que isso foi ontem...
ps: não, as alopatias vencidas não são utilizadas e não, não sou hipocondríaco pois, caso fosse, não deixaria os tais prazos expirarem


(por claudio boczon)
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Cláudio, pelo sim ou pelo não, aqui vai um link de um TESTE, se você É ou Não HIPOCONDRÍACO.
Não custa fazer o teste e tirar as dúvidas! Fiz o teste e tive 30 pontos o que me exclui do clube dos hipocondríaco!

Hipocondria
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de
Hipocondríaco)
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A hipocondria, do grego hypo- (abaixo) e chondros (cartilagem do diafragma), também conhecida por nosomifalia, é um estado psíquico que se caracteriza pela crença infundada de se padecer de uma doença grave. Costuma vir associada a um medo irracional da morte, a uma obsessão com sintomas ou defeitos físicos irrelevantes, preocupação e auto-observação constante do corpo e até as vezes, à descrença nos diagnósticos médicos.
A hipocondria pode vir associada ao
transtorno obsessivo-compulsivo e à ansiedade.

(Por Eduardo P.L.)
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DOENTE SEM FRONTEIRAS

Acordo na ressaca do Castilium, apalermado de dores de cabeça e extenuado das cólicas nocturnas do Gutalax. Tropeço, meio zonzo, até à casa de banho. Bombardeio a retrete numa escatologia devastadora que, finalmente, me liberta dos despojos da véspera. Engulo duas Aspirinas em jejum e desço cambaleante para o pequeno-almoço, ansioso por um choque vitamínico de Centrum que engulo com sofreguidão, juntamente com um Goronsan. No pé, uma coceira imensa irrompe de supetão, impedindo-me de raciocinar. Os dermatófitos massacram-me os entrestícios à beira da telangiectasia. Corro a encharcar-me em creme Pevisione. Pelo caminho descubro que a afta da véspera continua em ebulição. Dou-lhe com Bocagel. Já mais acordado, meto uma de Zarator para o colestrol e tenho a sensação fantástica da absorção calma dos lípidos pela acção da atorvastatina. Está na hora do Relmus e do Voltaren na descontracção do torcicolo que me arrasa vai para três dias. Nesta altura começo a sentir uma ligeira claustrofobia que, por sistema, me ataca pelas 11h da manhã. Corro para a rua, onde de imediato entro em agarofobia. Mesmo assim prefiro do que a apeirofobia da véspera, safa! Regresso a casa cozido com as paredes e sento-me para meio Victan, só para acalmar o pânico. Não dá para exagerar por causa do Prozac que ando a devorar. A úlcera duodenal manifesta-se na abstinência de Omeprazol. Enfio dois, pelo sim, pelo não. Chega o almoço e vem a dose do costume: Asacol e Dicetel, acompanhados a mousse de chocolate. A meio da tarde vai um Cialis para dar mais potência à intenção. A cabeça entra a latejar impenitente. É dia de enxaqueca. O apelo ao Migraleve é irresistível. Jantar normal apenas com suplemento mineral à base de fósforo, ferro e magnésio. Meia-noite. Deito-me com o sabor amargo do Castilium. Ainda bem que sou saudável!
Jorge Pinheiro (expressodalinha.blogspot.com)
3de Abril/2008
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Já que o meu orgulho doentio não me permitia - como seria de não esperar – aprender com os meus erros, tentei aprender com os dos outros. Amiúde, ao refogar-me sob o efeito pungente da cebola cortada em cubos punha ou azeite ou sal a mais.

Não se extraiam inventários murais desta prática secular que consiste em tornarmo-nos inconsequentemente inconsistentes…ela existe e eu salivava-a. Fermentava eu a ideia de que o vinho tinto e o serenal poderiam erigir uma casa sólida e comungar de vivências ao som de Wagner de frigideira em punho. Enganei-me e quem estava a nadar no azeite era eu.

Lembrei-me então que a auto-gestão e a vontade própria tinham defenestrado o Artur dum 7º andar pelos mesmos motivos: o refogado de cebola, esse mestre manhoso e manipulador. No caso dele, a obsessão compulsiva aliada ao cultivo da sardinha transgénica quis que, ao vislumbrar uma cegonha en passan, ele quisesse expiar seus pecados à polícia astral, transformando a via pública naquele dia num pesadelo expressionista.

Para mim não queria aquilo. No meu caso, o refogado teletransportou o auto-conhecimento para lá dos limites do sério. Wagner continuava ali a debater Odin com Nietzsche, enquanto Rimbaud lavava os olhos com absinto. Eu estava no estômago de Artaud e ao rever pedaços do joelho metálico do Artur tirei um papelinho do bolso:

“Receita para gente escandalizada

- 1 chávena de halotano1 dildo

1/2 colher de clorofórmio

1 jornal sensacionalista

3 guardanapos

1 água mineral

2 colheres de sopa de éter

1 pitada de colorau

muita vontade

pouca vontade

ingolir tudo com "e" “

Fique ali a fritar, a fritar, a fritar, a fruir a fruir a ir a ir…
Por Miguel Barroso

http://www.aseiva.blogspot.com/

09 de Maio de 2008

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CONTE O SEU

16 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Ótimo conto, mais para PHARMÁCIA do que de BOTECO!!!

Muito bom...
Vou já pensar no troco...e truco!

claudio boczon disse...

Fiz 25 no tal teste.

Acontece que, quase invariavelmente, com a idade o papo periga desambar para este assunto, mas a farmácia aí é só um pretexto para falar sobre o correr do tempo (cronológico, e não climático).

Eduardo P.L. disse...

Claudio,

é menos do que eu!!!!E não sou nenhum pouco!
Detesto remédio...Médico, farmácia e derivados....

Sonia A. Mascaro disse...

Gostei do conto do Claudio! Esse inventário, que também já fiz aqui na minha "farmácia", levanta mesmo a poeira da memória!

Eduardo,
Há dois tipos de hipocondríaco: um que adora um teste destes e outro que morre de medo de fazê-lo! (risos).

Quanto remédio que desconheço! Ótimo o texto do Jorge, "Doente sem Fronteiras". Imagine se ele não fosse saudável!

claudio boczon disse...

esta rotina saudável lembrou aquela velha anedota:

"a única doença que tenho é hipocondria!"

Eduardo P.L. disse...

Sonia,

tem os hipocondríacos que juram que não são. E tem os que não assumem jamais! Fora destes dois grupos não conheço ninguém!

Eduardo P.L. disse...

Claudio,

idem o que escrevi para a Sonia!

hahaha!

peri s.c. disse...

Qsse assunto promete.

E como mandou gravar, o hiponcodríaco, em sua lápide : " Estão vendo como eu tinha razão ?"

Sonia A. Mascaro disse...

Adoro esta frase, que para mim é uma inquestionável verdade!! "HEALTH IS THE FIRST OF ALL LIBERTIES".

Foi escrita por Henri Fréderic Amiel (1821-1881), filósofo suiço, conhecido pelo seu Amiel's Journey (1872), um criterioso diário de 23 anos de auto-reflexão e análises.

Eduardo P.L. disse...

Sonia,

E só se da VALOR quando se perde! Como a LIBERDADE!

Sonia A. Mascaro disse...

É verdade, Eduardo! Bem lembrado!
Bjs.

Miguel Barroso disse...

Gostei deste espaço! Força!

Eduardo P.L. disse...

Miguel,

conte o seu...

Eduardo P.L. disse...

Obrigado Miguel, pelo seu conto e participação!
Estaremos SEMPRE aberto a todos que desejem participar!

Miguel Barroso disse...

Após um longo banho em arroz integral, eis-me limpinho a assistir aos próximos contos...

Eduardo P.L. disse...

Fiz quetao de vir deixar um recadinho aqui no blog que apesar de POUCA publicidade pelos seus PARTICIPANTES OFICIAIS tem uma média de dez visitas por dia.
Acho muito bom.

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conte o seu : qcucaup@gmail.com