PAGANDO MICO

Aconteceu com a minha mãe, quando eu tinha mais ou menos cinco anos.
Meus pais tinham um amigo inglês, muito gentil, que um dia telefonou para eles dizendo que tinha um presente de Natal para as suas filhas, eu e minha irmã.
Era um carneirinho! Nós duas ficamos animadíssimas, já imaginando um carneirinho branquinho e muito fofo. Então lá foi minha mãe, de taxi, naquele tempo se falava "carro de aluguel", buscar o tal do carneirinho na casa do inglês que morava no bairro do Pacaembu, em São Paulo.
Chegando lá, minha mãe teve a maior surpresa ao ver que o tal do carneirinho era na verdade um carneirão adulto, de chifres retorcidos, lanudo e encardidíssimo, que veio trotando em direção a ela, passando por entre as poltronas, mesinhas e outros móveis da sala. Minha mãe, coitada, bem que tentou recusar o presente, mas não houve jeito, o tal do inglês queria mesmo era se livrar do animal. Com a ajuda do motorista do taxi, colocaram um saco de estopa na cabeça do carneiro, amarraram as pernas e com muito custo colocaram o animal entre os bancos do carro. O carneiro se debatia, tentando dar marradas e cabeçadas. Minha mãe segurava-o pelos chifres, morrendo de medo de levar uma chifrada. Nem bem o carro tinha andado dois quarteirões, minha mãe não suportando mais lutar com o carneiro, disse:
- Pára, pára já o carro! Vou soltar esse carneiro aqui mesmo!
O Pacaembu naquela época, 1947, era pouco povoado, com muito mato, terrenos baldios...
O taxista então teve uma idéia:
- Dona, se a senhora não se incomoda, em vez de soltar, posso ficar com ele para comermos no Natal...
Minha mãe, muito aliviada, concordou sem vacilar!
- O carneiro é seu, contanto que eu não o segure nem mais um minuto!
O motorista colocou então o carneiro no porta-malas e lá se foram eles até Pinheiros, onde morávamos, com o carneiro dando pulos e se debatendo.
Final feliz para os dois .... já para o carneiro...
(Por Sonia de Amorim Mascaro)

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Seu conto me remeteu imediatamente para a VELHA e CONHECIDA história do BODE NA SALA.
Para quem não sabe ( será que ainda alguém desconhece?)

A parábola é antiga. "Alguns a dizem de origem chinesa, outros de origem árabe e até já ouvi uma versão nordestina.
Entretanto, o formato é o mesmo.
Ao ouvir os reclamos de seus muitos filhos sobre as precárias condições em que viviam, o lavrador não teve dúvidas: trouxe o bode do quintal para a sala.
Durante um mês, a vida que já era ruim se transtornou ainda mais.
Após este período, o lavrador voltou o bode para o quintal.
Seus filhos se convenceram de que suas vidas eram as melhores do universo."

O amigo da sua mãe tentou tirar o CARNEIRO da casa, e sua mãe idem com o taxista! Quem pagou o mico??

Por Eduardo P.L.

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Devia ter uns onze anos quando minha mãe, genuína polaca em questões de estilo e moda, me comprou um calção de banho roxo-hematoma e eu, já querendo tomar
as rédeas da existência, finquei pé de que não iria vestir uma coisa daquelas.

- Se quiser trocar, vá sozinho à loja, porque eu não vou! - me disse ela.

E lá fui eu, tomar ônibus até a Praça Zacarias para efetuar a troca nas Lojas Pernambucanas. Na época, até onde sabia, apenas a Americanas tinha escada
rolante na cidade: dois lances paralelos, um para cima, outro para baixo - como convém; mas na dita Pernambucanas me deparei com um só lance, que descia, e
eu tinha que subir.

Na falta de alternativa visível e orgulhoso a ponto de não pedir orientação, me meti na escada, desafiando os degraus que teimavam em descer, enquanto eu
pernava e penava para vencer a gravidade. Não lembro quanto tempo levei (até hoje me parece ter sido uma eternidade) para conseguir chegar até o segundo
andar mas cheguei, ofegante, suando, com as pernas bambas e fazendo de conta que nada anormal havia ocorrido.

Com o rabo do olho vi dois ou três vendedores que trocavam muxoxos entre si, me agarrei a um trapo da dignidade que me sobrou e fui até o balcão de trocas,

para finalmente ter meu calção verde-limão.

(Por Claudio Boczon)
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6 comentários:

Sonia A. Mascaro disse...

Eduardo,
Eu não conhecia essa parábola... bem exemplar! Na certa quem pagou o mico foi o Carneiro!
Beijos.

Eduardo P.L. disse...

Sonia,

o negrito é segredo entre você e o Quintino? Ou pode ensinar????

Sonia A. Mascaro disse...

Claro que posso ensinar! Super fácil! Vou enviar por e-mail.
Bjs.

Maria Augusta disse...

Aprendi agora o que quer dizer pagar um mico, não sabia o que queria dizer esta expressão. Interessante, vou pensar em algo sobre o tema.
Abraços a todos.

Eduardo P.L. disse...

Maria Augusta,

AGUARDAREMOS....

Abçs

Quem não pagou um????

Eduardo P.L. disse...

Claudio, DEMOROU mas veio com TUDO. Muito bom. Eu me vi em alguns momentos do CONTO com aquelka idade e aquelas pequenas experiências FUNDAMENTAIS de afirmação!
Roxo, por verde limão, bela troca!

Abraços e vamos ver se o POVO se ANIMA!

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