DUAS E DEZESSETE

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Ontem, já a noite, ele anunciou ter encontrado um inimigo, desses que pareciam ter tomado anabolizante e que travava lutas por aí. "Não pensa, mata", mandei, como uma verdadeira tirana, sem dó, nem piedade. Ô serzinho nojento, desprovido de qualquer partícula socialmente aceitável. Morte, morte, morte.
Eis que o eliminador falhou em sua tarefa: pelo despreparo que o levou a distração e, consequentemente, a fuga do elemento — pois de certo era um macho.
"Se escondeu" justificou-se o matador e, conformado, voltou ao seu posto em descanso. Frustrante, mas nada supreendente. Ele, em um ato insano, logo após a desistência, quis apagar as luzes.
"Perdeu a cabeça? Além de nos deixar desprotegidos, ainda nos banhará pela escuridão e dará a ele o crédito de se esconder e atacar sem que possamos nem mesmo ver?!"
Com o alerta, afastou a mão do interruptor e deitou-se, totalmente vencido, sob o colchão. David vitorioso sob Golias — mais uma vez. Tranquei-me, muito depois, em meu próprio refúgio e não sai de lá até que a luz do sol adentrasse pelas janelas e me permitisse o luxo da clareza por todo o ambiente. A pergunta, porém, ficou fixa em minha cabeça, como meus fios de cabelo, "será que ele já se retirou? aproveitou a noite, redimiu-se e foi para outro lugar?"
Como pode um sujeitinho desses pensar que, simplesmente, pode chegar e se acomodar, se fazer em casa? Imaginei-me, sentindo arrepios, claro, não podendo ir ao banheiro pela sua presença; não me estirar no sofá por receio que ele surja e me afaste do sossego. Como posso dormir com a ameaça dele entrar no meu quarto e... Deus!
E aí, nesta turbulência, o localizo: bem em cima da MINHA mesa, onde me sento, onde como, onde falo, onde a tudo faço e ele bem ali, se achando dono da madeira, crente, crente que pode correr para lá e para cá. De repente me vi como Arturo, só que em vez de caranguejos, era com baratas que eu estava lidando; e à guisa de um massacre, algo limpo e discreto me bastava: um único golpe e ela (ele, pois de certo era um macho) estava morta ao chão.


REBECCA ALBINO

5 comentários:

sonia a. mascaro disse...

Rebecca, li seu texto de um fôlego só! Ótima narrativa!
Um abraço.

Cristiane Marino disse...

Parabéns pelo texto, excelente a qualidade!

Parabéns pela idéia do pessoal em criar este blog. Muito bom, com textos bem escritos.

beijos

Cristiane Marino disse...

Oie!

Tem uma indicação para o blog de vocês lá no meu!

bjs

Atreyu disse...

Narração muito boa!
A gente viaja por cada frase!
Muito legal =D

Conceição Duarte disse...

Minha querida, obrigada pela passagem lá no meu blog por ocasião do post de ontém pelo dia ecológico! Aqui, venho vez por outra... Apareça sempre, será enorme o prazer!
bjus CON

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